A contradição do formalismo esquerda-direita
Faça um exercício, pesquise no seu navegador do que se trata esquerda e direita. O que provavelmente terá se deparado são atribuições carentes-de-conteúdo, termos genéricos que mais confundem o leitor leigo do que contribuem para seu amadurecimento. Afinal de contas, o que significa dizer que o "esquerdista" preserva a igualdade perante a liberdade e o "direitista" seu inverso? Que o "esquerdista" tem como seu mote o progresso e o "direitista" a tradição? Que o "esquerdista" quer preservar o Bem-estar coletivo e o "direitista" quer preservar a segurança?
Se o leitor é habituado com a maiêutica, deve ter notado de imediato as problemáticas que esta vulgarização provoca no debate público. Afinal de contas, o que é igualdade? O que é liberdade? O que é tradição? E, sendo determinados os termos, quais as implicações destas definições? Afirmar que o "Bem-estar coletivo deve ter primazia sob o Bem-estar individual" implica em, por exemplo, legitimação dos impostos para sustentação da maquinaria governamental? Afirmar que "todos devem ter liberdade para fazer o que bem entenderem desde que não interfira na liberdade do outro" torna a liberdade isenta de prestar contas à responsabilidade, aos deveres, à contratos etc.?
De fato, como mencionado, há empreitadas para delimitar estes conceitos, assim como há críticas a essa formalização. No entanto, mesmo os críticos deste formalismo não o abandonam por completo, e nisso incide uma contradição; o formalismo esquerda-direita é ultrapassado e moderno ao mesmo tempo!
Vamos usar de exemplo as críticas, positivas ou negativas, a respeito da figura do Lula (aqui sendo usado lulismo). Em nichos de esquerda radical, há controvérsias a respeito do início do lulismo, mas a conclusão não muda: o lulismo/petismo traiu as suas bases sociais. No seu terceiro mandato, figuras como Jones Manoel o acusam de fazer um governo conciliador, neoliberal. O termo "neoliberal", a princípio, é usado para caracterizar quem segue o neoliberalismo, este por sua vez associado a "direita". Logo, Lula está fazendo um governo de direita. É um traidor de classe!
Mas ao mesmo tempo, por algum motivo, é transparente que Lula não pode ser somente um neoliberal. Como colocaríamos Lula no mesmo balaio teórico e político de figuras como Margaret Thatcher e Ronald Reagan (ou pior, com os políticos tucanos, os quais fizeram forte oposição ao governos petistas)? Será que alguém que simpatiza com o PT simpatizaria com os neoliberais? Será que a afirmação "o PSDB é petista" ou o inverso incomodaria alguém que tem simpatia ou antipatia por tais fenômenos políticos? Algo não está certo.
É nesse cenário de incômodo que um novo conceito é amarrotado ao Lula: esquerda liberal. Agora, tudo faz sentido: o Lula traiu suas bases sociais porque ele compõe a corrente teórica da esquerda liberal, a esquerda conciliadora, "cirandeira". Fazendo um silogismo: se alguém é de esquerda liberal, logo ele fará um governo de direita. Assim, conclui-se que a esquerda liberal necessariamente resulta em políticas de direita.
Perceba que nesse cenário, vários críticos à corrente teórica do lulopetismo tem problemas em rotulá-lo como "esquerda" ou "direita" somente. Sempre são críticas no sentido de "ele cacareja para a esquerda mas bota ovos para a direita!", "ele se alia a setores de direita porque todo esquerdista é falso!", e assim por diante. É incômodo caracterizá-lo somente por uma definição. Nisso, surge essa transformação: 'algo' de esquerda tem seu fim em 'algo' de direita.
A corrente teórica do "antipetismo" (abarcando "bolsonaristas", "novistas", "moristas", "MBListas mainstream", "marçalistas" etc.) também endossa essa transformação. Como se pode justificar ações do Bolsonaro como se autodeclarar "ser do Centrão" e indicações questionáveis à secretarias, ou ações questionáveis do Sérgio Moro ou do Paulo Guedes? Ora, eles traíram sua base, logo eles se tornaram o sistema, que segundo eles, é tomado pela esquerda; logo, eles são de esquerda.
Ao mesmo tempo, surge o incômodo. Como conciliar o fato deles serem de esquerda e seus discursos enfáticos e frequentes endossando antipetismo e anticomunismo? De políticas econômicas definitivamente antagônicas aos petistas? Eles serem falsos não fornece uma justificativa sólida, não sendo nada mais que artifício retórico. Nisso, tira-se o coelho da cartola: são a "direita caviar", a "direita do sapatênis", a "direita moderada", a "direita que a esquerda gosta" e variados.
E, novamente, a maiêutica entra. Ao perguntar do que se trata ser de "esquerda" ou de "direita", vários deles consideram este formalismo ultrapassado.
Essa é uma dissertação que usou de exemplo fenômenos políticos correntes para maior facilitação; mas, ao se debruçar na História e em Filosofia Política, a porca torce o rabo de vez!
Como seria a reação do leitor vulgar ao descobrir dos hegelianos de esquerda e de direita? Como seria a reação do mais intrépido antifascista ao descobrir que o fascismo surgiu a partir de uma dissidência interna do socialismo marxista? Como seria a reação do simpático ao regime militar brasileiro ao descobrir as recentes acusações de tradicionalistas católicos ligados a TFP e correntes olavistas de que seu governo foi na verdade de esquerda? Como seria a reação do nacionalista negro ao descobrir que Malcolm X não via o menor problema em discursar com nazistas? Como seria a reação do mais ferrenho falangista ao descobrir que sua filosofia foi elogiada pelos teóricos do socialismo cubano? E assim por diante.
Diria que esta é uma abordagem, de certa forma e recolhendo-me a minha insignificância, dialética. O formalismo esquerda-direita é ultrapassado. Vimos isso nos últimos parágrafos. Ao mesmo tempo, é eficiente, útil, moderno. Serve como uma noção geral da realidade política, e dificilmente será abandonado nos próximos anos — como seus críticos fazem parecer...


Comentários
Postar um comentário